Histórias de Corredores Pra Vida – Parte I

28 de junho de 2018 - 10:51 # #

Emanoel Montenegro - Assessoria de Comunicação - (85) 3238.5090
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Projeto da SPD reduz danos e promove os direitos e a inserção nas políticas públicas de saúde da população que faz uso de álcool e outras drogas

Um contêiner instalado na área conhecida por Oitão Preto, junto à Santa Casa da Misericórdia, no Centro de Fortaleza, tem feito a diferença na vida de pessoas em situação de rua ou em outros contextos de vulnerabilidade social, desde outubro de 2015, quando foi lançado o Projeto Corre Pra Vida da Secretaria Especial de Políticas sobre Drogas (SPD).

Idealizado para reduzir danos e promover os direitos e a inserção nas políticas públicas de saúde da população que faz uso de álcool e outras drogas, o ponto de acolhimento e abordagem da SPD conta com equipe de profissionais interdisciplinares – formada por psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, redutores de danos, motoristas e serviços gerais -, disponíveis aos usuários, para acolher suas demandas, realizar atendimentos psicossociais e fazer encaminhamentos necessários aos serviços de saúde e à rede socioassistencial. Funciona das 8 às 17 horas, de segunda a sexta-feira, e das 8 ao meio-dia, aos sábados, disponibilizando, ainda, sanitário, banho e insumos de higiene e saúde aos usuários.

É no contêiner que o brasiliense Arlindo Ferreira, 45, toma banho e faz a higiene pessoal, de segunda a sábado, pela manhã e à tarde. Morador de rua há alguns anos, ele fala ter encontrado no local boa receptividade por parte da equipe. “As pessoas aqui mantêm um relacionamento mais pessoal do que na maioria dos locais. A maioria dos meninos conhece o pessoal todo pelo nome, não é uma coisa tão fria, tão mecânica.” Além dos cuidados com a higiene pessoal, no Corre Pra Vida, Arlindo diz ter acesso a “um encaminhamento para um hospital, uma palestra, uma conversa, uma distração”. Ele vive do artesanato que produz a partir de material reciclado. Casca de coco seco, alumínio, pneu, que transforma em miniaturas de instrumentos musicais e vende nos sinais de trânsito “e onde tiver gente pra comprar, vou oferecendo”. Cada peça custa R$ 20,00. “Mas, dependendo da situação, vai caindo”, conta o artesão, que cursou até o quarto período do curso de biologia da Universidade de Brasília (UnB). Ele faz planos de retomar a faculdade um dia e de sair da rua. “Quando eu posso, pago uma pensão na (rua) Princesa Isabel. Tem alguns quartos que a gente paga de R$15,00 a R$20,00 para dormir. Quando eu não posso pagar, durmo na praça da Sé.” Arlindo comenta que na rua fica mais vulnerável à violência urbana e que já teve seus documentos pessoais furtados várias vezes enquanto dormia. “Sempre vem alguém e carrega. A população de rua é meio desunida, não é classista como os professores, os caminhoneiros. Ela é heterogênea. São várias pessoas, com vários pensamentos. Ninguém tem um objetivo em comum”, analisa. Hoje, mantém sua documentação organizada e segura no contêiner, outro benefício do Corre pra Vida que ele destaca. “A gente tem uma pastinha aqui, melhor que ficar andando com os documentos”, explica.

Thiago Freire, 34, também guarda seus documentos no contêiner do Corre pra Vida, além de ser um dos locais onde faz a sua higiene pessoal. “Aqui é um lugar muito legal pra vir tomar banho e dar continuidade ao dia. A gente já passa o dia sujo, com o espiritual baixo, com aquele peso, fica pior ainda pra se libertar da droga. Então, precisamos de ajuda e uma dessas ajudas é aqui”, diz o recifense, que chegou a Fortaleza há quase 10 anos para fazer tratamento em uma clínica de recuperação para dependentes químicos. Ao receber alta, resolveu ficar na cidade, indo morar em um imóvel alugado no bairro Jardim Jatobá. Então, veio a recaída. “Eu tive que sair da casa e conheci a rua, primeiro os terminais de ônibus, porque eu tinha medo de ir pra rua. No decorrer dos dias eu fui perdendo esse medo”, conta. Depois de passar pela praça do Ferreira, ele se dirigiu para a região da Beira Mar, onde atualmente dorme e ganha algum dinheiro como cuidador de carros. No momento, está procurando por novas oportunidades de renda. “E também ‘tô’ aprendendo a dar valor a essas oportunidades para poder mudar de vida. Essa semana eu ‘tô’ atrás de montar um currículo para entregar nos lugares, para poder ter uma oportunidade de novo, começar a ser um profissional nas áreas que eu aprendi.” Thiago é pintor e funileiro automotivo, com experiência de 4 anos; tosador de cachorros, já tendo comandado um Pet Shop; além de ter curso de eletricista predial, cabeleireiro e barbeiro. Foi junto à equipe do Corre Pra Vida que ele encontrou incentivo para buscar seu lugar ao sol. “A forma com que essas pessoas que trabalham aqui se dedicam, porque nem todo mundo presta um serviço desses com amor, do jeito que eles fazem. Não é pra todo mundo. Tem várias pessoas que estão com o caráter destruído pelo mundo, pelo sofrimento que, às vezes, chegam a tirar a paciência da pessoa. Eles conseguem manter a paciência e tratar com amor e eu acho isso muito lindo.”