Superando a dependência química – Histórias de acolhidos na Fazenda O Caminho – Parte II

8 de novembro de 2018 - 09:53 #

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Projetos Novas Escolhas e Criando Oportunidades ajudam na reinserção social e profissional de pessoas em tratamento de uso abusivo de álcool e outras drogas

A reinserção social e profissional de pessoas em tratamento de uso abusivo de álcool e outras drogas é uma etapa importante na caminhada para superar a dependência química e pode ser determinante na sua recuperação integral. Este é um dos eixos de atuação da Secretaria Especial de Políticas sobre Drogas (SPD), que oferta cursos profissionalizantes gratuitos para acolhidos em Comunidades Terapêuticas (CTs) no Ceará por meio dos projetos Novas Escolhas e Criando Oportunidades, este último implementado em parceria com a Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) do Estado. Em 2017, foram beneficiados 160 acolhidos em CTs que prestam serviço à SPD.

Na Fazenda O Caminho, localizada em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), foram ofertados os cursos de pintura e textura de paredes pelo Criando Oportunidades; e mecânico de motos e doces e salgados pelo Novas Escolhas. Foram priorizados ofícios que hoje apresentam maior demanda por profissionais especializados para o mercado de trabalho.

O fortalezense Marcelo de Souza, 33 anos, morava em Aracati, no litoral Leste do Ceará, quando resolveu buscar tratamento profissional para superar a dependência química. “Eu estava perdido nas ruas. Eu mesmo tomei a decisão de ir para as ruas porque eu já não estava mais aguentando. Eu estava sofrendo e fazendo a minha mulher sofrer”, conta Marcelo, que junto com a esposa procurou a unidade do CAPS local, recebendo encaminhamento para o CRD Fortaleza, de onde foi direcionado para a CT Fazenda O Caminho. “No começo, foi duro, foi difícil. Eu não queria aceitar. Tinha vontade de sair, de voltar para aquela vida de novo. Com um certo tempo, eu fui me acostumando, fui começando a enxergar a vida como ela é. Hoje, eu posso perceber que a melhor escolha da minha vida foi ter vindo para esse lugar. Hoje, eu me sinto bem. Hoje, eu tenho planos, coisa que eu não tinha. Na CT, Marcelo fez os cursos de mecânico de motos e de pintura e textura de paredes, que lhe deram experiência em áreas de atuação distintas, tendo ele, inclusive, ajudado na reforma da Fazenda, pintando os muros e as paredes. Atualmente, Marcelo é funcionário contratado do Caminho. “Eu sou co-monitor aqui, olhando os internos nas atividades práticas, orientando sobre as normas e regras, dando uma ajuda. Pra mim, isso é o máximo. Eu nunca imaginaria estar num lugar como esses, ainda mais ajudando”.

Reginaldo Simão de Oliveira, 39 anos, nasceu em Ubajara, região serrana do Ceará; e morou durante 27 anos no Estado de São Paulo, onde trabalhou em grandes empresas até passar a enfrentar problemas com o alcoolismo. Há cerca de nove meses, ele chegou à Fazenda O Caminho. “Foi aqui onde eu vim me reconstruir, saber o que é uma recuperação. Até então, eu não sabia o que era isso. Aqui, encontrei apoio. Eu não sabia onde acharia esse apoio”. Ao ser apresentado ao Projeto Novas Escolhas, interessou-se em fazer o curso de mecânico de motos. “O ser humano, hoje, tem que saber várias funções. Para sobreviver no mundo, hoje, você tem que ter várias visões para várias áreas. Esse curso me ajudará muito na minha caminhada lá fora porque, com o certificado que recebi, tem como eu provar que tenho um curso para me fortalecer futuramente.” Enquanto segue em tratamento, Reginaldo cuida da horta da Fazenda com todo amor e a experiência acumulada na área do plantio. “Nasci e me criei na Ibiapaba. Lá, o pessoal só trabalha com verdura. Fiz curso de agronomia em Mogi das Cruzes e de plantas medicinais em Tianguá (CE)”. Sobre o futuro, ele quer permanecer na CT, ajudando voluntariamente. “A casa merece. Aqui encontrei a paz, encontrei amigos, aqui eu me transformei”.

Natural de Fortaleza, Francisco Luciano Lima Barros, 46 anos, chegou à Fazenda O Caminho em julho de 2014. “De início, como todos, relutei muito em ficar. Não queria porque achava que não havia necessidade de tratamento. Mas, com o passar dos dias, através das palestras, dos trabalhos, das atividades que são feitas aqui na instituição, eu vim a compreender a necessidade de passar por um tratamento”. Ele participou do curso de doces e salgados, com carga horária de 100 horas. “Eu achei muito gratificante o curso em si e o certificado dá a garantia de que eu, realmente, fui aprovado no curso. Eu estou qualificado, caso apareça a oportunidade de exercer a profissão”. Nos eventos da Fazenda, Francisco ajuda na preparação dos pratos na cozinha. Dentro de um cardápio variado que aprendeu a cozinhar, ele elege o seu salgado preferido: “O pão Costela de Adão. Nunca tinha visto esse pão. É muito bom”. Desde que terminou seu tratamento, tem atuado na CT como auxiliar de monitor, tendo passado por capacitação para exercer a função na Faculdade Luterana. “Minha vontade é de continuar aqui e me aprimorar mais ainda na profissão de monitor de comunidade terapêutica para ajudar outras pessoas até o dia que Deus tiver outros planos para a minha vida”.

Fazenda O Caminho

Fundada em junho de 2010, a Comunidade Terapêutica Fazenda O Caminho trabalha na recuperação e reabilitação psicossocial de pessoas usuárias de drogas e álcool, com altos índices de recuperação, como destaca o diretor da CT, Raildro Brandão. “Nosso índice é de 14%. Por aqui já passaram 823 pessoas e, dessas, consideramos que 113 estão recuperadas realmente”. Na instituição, a saúde do dependente químico é tratada em sua totalidade: mental, física e espiritual. O plano de trabalho inclui acompanhamento psicológico, atividades práticas inclusivas, com tarefas comuns de uma casa; oficinas, palestras temáticas, reuniões de grupos, opções de lazer e apoio à reinserção social dentre outros. Os programas de atendimento ainda envolvem os familiares dos dependentes. “De 15 em 15 dias, há o encontro familiar, um momento de comunhão com todos. Os familiares chegam às 10 horas, almoçam com a gente, ficam até às 16 horas”, fala Raildro, conhecido entre os acolhidos também por “Papai Brandão” pela forma fraterna com que trata a todos sem distinção. Ao ajudar o próximo, ele diz ter encontrado a realização pessoal e profissional. “Trabalhamos com dedicação porque existe o amor acima de tudo. A gente ama isso aqui”.