CRD é porta de acesso a uma nova vida

7 de dezembro de 2018 - 11:57 # # # #

Emmanuel Montenegro - Assessoria de Comunicação - (85) 3238.5090 / 9.9910.3443
comunicacao@spd.ce.gov.br / emmanuel.montenegro@spd.ce.gov.br

Gestor terapêutico do Instituto Volta Vida e palestrante dá seu depoimento pessoal sobre o abuso de drogas e a fase de recuperação

Na infância em Itapajé, cidade do interior cearense onde nasceu, Fernando Araújo, 28, considerava-se diferente dos outros garotos de sua idade. Além do excesso de timidez, mentia e praticava pequenos furtos com frequência. Foi quando, aos 11 anos, conheceu a maconha. A partir daí sua vida mudou. “Eu conheci pessoas, passei a conversar mais, e com pessoas que eu nem conhecia. Era completamente diferente para mim. É o que a gente chama de ‘fase inicial da doença’, o ‘namoro com a substância’. Não tem nada de natureza mais grave, apenas curtição”, diz Fernando, que fez uso da droga dos 11 aos 14 anos, até que passou a usar o mesclado (crack mais maconha). Nesse ponto, a “doença” que ele e a irmandade de apoio Narcóticos Anônimos (N.A.) classificam como “adicção”, progrediu e veio a dependência química. “Minhas deficiências comportamentais ficaram ainda mais acentuadas, porque a dependência química passou a me exigir demais e eu comecei a abrir mão de algumas áreas da minha vida: estudo, trabalho, relacionamentos, família. Até que eu me vi sozinho.” Aliado a tudo isso, Fernando havia desenvolvido um quadro de alcoolismo severo, que o fez encarar uma triste realidade e se questionar: “O porquê de eu não conseguir parar. Foram inúmeras tentativas sem sucesso. Tentei controlar o uso, mudar de substância, ficar trancado em casa, ir para a igreja, grupo de oração, usar droga só no fim de semana. Fui para São Paulo, lá o desvale foi ainda maior”, conta.

De volta a Itapajé, após uma briga na rua por causa de droga da qual saiu ferido, Fernando teve o que ele chama de seu “primeiro despertar espiritual”, em 24 de janeiro de 2015. “Eu me enxerguei completamente vazio, completamente nu, de princípios, qualidade, valores, uma pessoa completamente entregue ao vício, à derrota, ao fracasso.” Naquele momento, disse a si mesmo que precisava fazer algo que o tirasse daquela situação. “Eu não sabia o quê. Fui em casa – nessa altura nem em casa eu podia mais entrar, mas nesse dia, depois de muita insistência, a minha mãe permitiu que eu entrasse – pesquisei no Google e encontrei o Centro de Referência sobre Drogas (CRD). Consegui um número de telefone, falei com a atendente, fiz um relato do meu caso e ela pediu que eu fosse até lá, que ela provavelmente iria me conseguir um processo de internação. Assim eu fiz”, lembra Fernando, que saiu de Itapagé com apenas R$ 50,00 no bolso para custear as despesas da viagem, dinheiro entregue pela mãe, que tinha a certeza de que ele iria gastar tudo com drogas. Fernando, porém, estava decidido a mudar de vida e mesmo sem conhecer nada nem ninguém em Forteza, conseguiu chegar ao CRD, que funciona no prédio da Secretaria Especial de Políticas sobre Drogas-SPD, no bairro Jacarecanga. Ele foi recebido por uma assistente social e, depois de passar por acolhimento, foi encaminhado para uma temporada de seis meses no Atos Centro Terapêutico, casa de recuperação e clínica de reabilitação para usuários de álcool e drogas localizada no Jardim Icaraí, em Caucaia.

A dificuldade em permanecer sob tratamento foi o maior desafio nesse recomeço para Fernando, que sentia uma vontade enorme de desistir e ir embora. Ele travava uma luta diária consigo mesmo. “Eu desenvolvi um mecanismo para me vencer, vencer essa vontade. De manhã, eu acordava e dizia: ‘vou embora. Não, vou depois do café’. Depois: ‘não, vou depois da limpeza. Depois do almoço’. E nessa prorrogação eu fui passando um mês, dois, três meses. No quarto mês, eu consegui estabilizar e concluir o processo de tratamento.”

Fernando obteve a “graduação”, o que, de acordo com a metodologia da entidade, significa que alcançou uma mudança de atitude diante da droga, além de condições de evitar recaídas. Então, ele começou a reformular sua vida. “Eu peguei tudo aquilo que eu tinha aprendido lá dentro, todas as orientações e passei a seguir, até hoje: evitar determinadas pessoas, ambientes e situações, já que a dependência química é uma doença comportamental. Estou caminhando para o meu quarto ano de recuperação. Eu presto muita atenção nos meus comportamentos e sigo a ideologia de 12 passos dos Narcóticos Anônimos (NA) e Alcoólicos Anônimos (AA), que vem me dando uma base pra que eu consiga me manter limpo durante esse tempo.”

Quando estava próximo de encerrar o tratamento, Fernando recebeu do Centro Terapêutico proposta para se integrar à unidade de Juazeiro do Norte como monitor, encarregado de monitorar e dirigir a atividade do residente na comunidade. Ele aceitou e por lá ficou três meses, iniciando um novo ciclo em sua vida. “Sempre pautando muito a questão da responsabilidade, dando prioridade às prioridades, sem buscar coisas que eu não tinha habilidade pra lidar naquela altura da minha vida.”

Em 2015, uma nova oportunidade surgiu: um emprego no Instituto Volta Vida (IVV), clínica de reabilitação para adictos localizada no bairro Lagoa Redonda, em Fortaleza. Fernando passou por um processo de estágio de trinta dias na monitoria, sendo efetivado no cargo logo após. Depois assumiu a função de TR (técnico de referência), acompanhando de perto os residentes, elaborando e acompanhando seus projetos terapêuticos; e de subgerente de uma ala do Instituto. Hoje é gestor terapêutico da unidade feminina do IVV e palestrante sobre dependência química. “Nas palestras, falamos sobre questões comportamentais, questões de uso, fatores biológicos, sociológicos, aspectos espirituais, para residentes e famílias co-dependentes, que também adquiriram algum distúrbio comportamental por conta da dependência química dos parentes. Nosso trabalho tem o auxílio de psicólogos, médicos, pessoas com viés um pouco mais religioso. A gente faz toda essa junção para atingir o nosso objetivo final, que é proporcionar recuperação para outras pessoas como um dia foi proporcionada a mim”, explica Fernando, que adquiriu uma vida estruturada, bem diferente de três anos atrás. Ele mora próximo à Clínica em uma casa alugada com o dinheiro fruto do seu trabalho e possui transporte próprio.

Não houve recaída desde o fim do tratamento, mas houve momentos difíceis como aquele em que se viu diante da possibilidade de usar droga, ele conta: “um dia eu estava na praça da Messejana e me deu uma vontade muito grande de usar. Eu disse: ‘vou usar, vou dar um tempo aqui e quando eu tiver bem melhor eu volto para o trabalho e ninguém vai perceber’. Numa fração de segundos, eu arquitetei tudo: ‘eu vou chegar no trabalho, tomar banho, passar perfume e comprar duas pastilhas Halls. Eu vou mastigar uma e levar a outra no bolso’. E quando eu levantei para concretizar, o primeiro ônibus que passou eu pulei dentro. Foi a resposta que eu tive naquele momento. Esse fato ficou marcado. Foi quando eu comecei a dar não para a substância”.

Enquanto o ônibus se distanciava da praça, Fernando foi deixando para trás uma vida dependente de drogas que ficou no passado. “Hoje eu tenho liberdade de escolha, o meu direito de escolha foi restituído. E o programa (de tratamento) me direcionou a tomar uma atitude de ação mais pautada na sanidade, que é dizer: eu não vou usar droga só por hoje. Eu não vou fazer uso de nenhuma substância que altere a minha mente ou o meu humor, porque eu não preciso mais disso pra viver.”